quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

JJ 3394

Jornalista que é jornalista está sempre atento e à espera de uma história boa. História boa, para a grande mídia, ou é muuuito triste ou é muuuito feliz. Extremista assim. Mas para mim, uma aprendiz de jornalista, história boa pode ser uma história de gente comum, sem sensacionalismo, sem maiores perdas ou ganhos, nada sobrenatural.

Conheci um homem no vôo que saiu de SP aqui para o Recife, onde estou agora. Um homem comum: cabeleireiro, na faixa dos 35 anos, homossexual, que passou algum tempo trabalhando em SP e agora estava voltando para Recife. Na verdade ele é sergipano, mas vive no Recife.

No embarque - aeroporto de Congonhas (SP) - tivemos que esperar quase 20 minutos no finger (corredor que leva até a aeronave) por causa de problemas operacionais. Nesse tempo, esse homem se aproximou e puxou conversa comigo. Ele estava com medo de andar de avião e queria especular por que o embarque estava demorando.

Veio falar com a pessoa certa: depois de três anos e meio trabalhando no aeroporto eu não tenho medo de avião. Será que deveria ter? Enfim... Descobri que nossas poltronas eram na mesma fileira.

Durante o vôo ele falou sobre o trabalho dele e me contou que a mãe teve 17 filhos. DEZESSETE! Para mim ela é uma guerreira. Parir 17 vezes não é para qualquer uma.
Conhecer alguém que tem - ou teve - 16 irmãos já uma história boa. (ele me contou que alguns morreram no parto)

Só depois de algum tempo de conversa é que ele me contou que é homossexual. Até aí, nada demais. Ele mora com um amigo, que é amigo mesmo e é hetero, e tem um cachorro - que por sinal viajava junto. Aliás, a passagem do cachorro custou 3X mais que a dele. rs
A maneira como ele falava do amigo e do cachorro era tão terna que considero isso outra história boa e rara nos dias de hoje.

Mas o que me fez refletir foi o fato dele esconder a homossexualidade da família e das outras pessoas menos próximas para evitar o julgamento. Isso é foda. Ele é um cara bem resolvido, mas a preocupação com os outros o impedia de ser plenamente feliz. Ele diz que a mãe, no fundo, sabe, mas tem medo de perguntar e ouvir a confirmação.

Já parou para pensar que a gente sofre muito mais por causa da opinião alheia do que por nossa própria opinião? Se nos preocupássemos menos em agradar aos outros e vivessemos de acordo com nossos princípios, seríamos imensamente mais felizes.

Depois de anos na terapia aprendi que não importa qual seja a nossa reação diante de um fato. Podemos agir de qualquer maneira. O que importa é que essa ação - ou reação - não nos deixe mal. Isso significa agir segundo nossa personalidade, princípios e valores.
Se você teve uma atitude que o deixou mal, pense bem. Será que era isso mesmo que você queria fazer/falar/calar?
Sabe aquela história de se preocupar mais com nossa consciência do que com nossa reputação? O caminho do bem-estar é por aí...


ao vivo de Recife e com insolação nas canelas

2 comentários:

Rê Ruffato disse...

É a pura realidade, mas nem por isso é fácil viver sem se preocupar e afetar com a opiniao dos outros. É uma das maiores liçoes da vida e a chave que dá acesso a uma felicidade incrível que é - finalmente - ser livre.
Liberdade tem tudo a ver com isso. Com viver sem se preocupar com a opiniao alheia.
Mas eita coisa difícil...

Igor Cruz - SUBUrbano e fudido. disse...

Comentei esse assunto hoje na hora do meu almoço. Complicado. Tenho certeza que ninguém vai bater na porta da casa dele, por livre e espontânea vontade se oferecendo pra pagar as contas dele. Agora pensemos: Somos livres? Ou não? Não dá pra falar que eu assumiria, pois é uma questão delicada. Agora vamos a duas observações (que não justificam, quero deixar isso bem claro):

1 - Já ouviu aquele ditado que "uma laranja podre apodrece as outras"? - Ao longo dos tempos, foram surgindo figuras caricatas homossexuais, na própria Grécia antiga, onde alguns participavam de apresentações teatrais, enfim, essas pessoas eram expostas ao ridículo e criou-se daí o preconceito, então para uma família mais, digamos, "tradicional" (não quero que essa palavra soe como defesa), torna-se complicada a aceitação do indivíduo premiado pelo estado de ser "afeminado", o que é uma atitude, ao meu ver, ridícula (a não aceitação), muito mais do que ser homossexual caricato, é, bichinha afetada, como dizem por aí.

2 - Direto ao assunto: Tem gay que não se toca! Sai dando em cima de todo homem que vê por aí, daí, gera-se o preconceito. O mundo gay, é um mundo rodeado, parece que de muito tesão, é quase uma promiscuidade, não tem relacionamentos duradouros, tudo isso devido a aplicação de sua liberdade propriamente dita. Não a liberdade que deveria existir, mas a liberdade que o próprio homossexual cria, como se fosse um desabafo, uma fuga. Isso gera um ridículo desconforto para a sociedade, no sentido moral e um triste desconforto para o próprio "mundo" gay, no sentido sentimental, não generalizando é claro. Gay também quer casar, quer ter filhos, quer ser e é um cidadão como qualquer outro.
Saber entender e respeitar o homossexual é atingir o ápice do bom caráter.

Desculpa por falar tanto, é que este assunto me comove.