quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Um Coração Palestino

Hoje, pela terceira vez, assisti ao documentário "Um Coração Palestino", exibido pelo canal GNT.

O vídeo mostra os conflitos religiosos que surgem quando um pai palestino decide doar os órgãos do filho de 12 anos para crianças israelenses.

Em 2005, Ahmad Khatib foi atingido por armas de soldados israelenses no Campo de Refugiados de Jenin. Os oficiais confundiram sua arma de brinquedo com uma arma de verdade e atiraram na criança. Algumas horas após o ataque, o garoto não resistiu aos ferimentos na cabeça e no peito.

O pai do menino teve de tomar uma difícil decisão: os órgãos de Ahmad poderiam salvar a vida de diversas crianças. E não seriam crianças quaisquer, mas sim jovens israelenses. Ismail deu permissão para que os médicos removessem o coração, fígado, os pulmões e rins de seu filho. Muitos o criticaram por doar os órgãos de Ahmad ao inimigo, que salvaram a vida de seis pessoas.

Neste filme, o diretor Marcus Vetter reconstrói os eventos e documenta a jornada de Ismail Khatib para conhecer três das seis crianças cujas vidas foram salvas pelos órgãos de seu filho, Ahmad.

Não sei se vão reprisar o documentário mais uma vez. Torço para que alguém - ou a própria GNT - disponibilize o vídeo na internet. É uma lição de desprendimento, sabedoria, altruísmo. Tudo o que as religiões e seus fiéis/fanáticos pregam, mas nem sempre praticam.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Re-post

Já postei essa mensagem aqui - e também já enviei por email diversas vezes aos amigos. Mas nunca é demais lê-la porque é genial.

"Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente."

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Uma História Severina

Uma História Severina. Sensível, agoniante, triste, real.
O namorido me indicou e só agora consegui assistir.
É impressionante o que os dogmas religiosos - e jurídicos - fazem com a vida das pessoas, inclusive com aqueles que não têm dogma nenhum.


video

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Extremos

Depois de viver a maior cheia dos últimos 50 anos - em junho deste ano o Rio Negro, em Manaus, atingiu 29,71 metros -, a Amazônia agora sofre com a seca. O nível dos rios está baixíssimo, prejudicando os peixes e o transporte dos ribeirinhos - e dos turistas, como eu. Resultado: atolamos no Rio Japurá. Mas graças a um amazonense, morador de uma comunidade no meio do rio que ajudou a empurrar a nossa voadeira, desencalhamos e seguimos viagem. Detalhe: o rio é povoado por arraias e jacarés.

Em alguns trechos, o Rio Japurá tem apenas 0,50 cm de profundidade. Segundo um meteorologista do Sipam (Sistema de Proteção da Amazônia), a seca deve se estender até o começo de 2010. A falta de chuvas é causada pelo fenômeno El Niño – um aquecimento anormal do Oceano Pacífico – que dificulta a formação de nuvens em parte da América do Sul.

Não é preciso consultar cientistas e/ou ambientalistas para descobrir a causa desses extremos.

Hellouuu COP-15.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Enfim, 30

Eu já disse aqui que estar com 30 anos é algo estranho. Não estou velha, mas também já não sou considerada nova para "n" situações. É uma idade meio descaracterizada.

Só sei que a partir de agora a contagem é regressiva.

É hora de começar a comprar cremes anti-rugas, de se preocupar com a flacidez, com o ganho de peso. Inclusive é hora de avaliar se quero ganhar um peso extra por 9 meses e uma companhia para vida toda.


Começo essa nova fase bem feliz, bem acompanhada, bem amadurecida, mais tranquila, mas ainda com muitas perguntas sem resposta. E é isso que me move.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Atrasos contemporâneos

Aqui no Amazonas há um programa público de acesso sem fio à internet, o Amazônia Digital. Inclusive aqui em Tefé funciona bem. Seria muito bacana, porém, se a população tivesse computadores em casa para usufruir do serviço.
Mais interessante ainda seria se a cidade tivesse um bom serviço de distribuição de energia elétrica. A maioria dos comerciantes têm de ter gerador, porque o abastecimento de luz sofre com o rodízio. Sim, rodízio! Uma metade do bairro recebe energia por algumas horas, enquanto a outra metade fica às escuras. E vice-versa. Desde que estou aqui, há 10 dias, tem sido assim.
Mas eu trocaria a internet gratuita e algumas horas de energia elétrica por saneamento básico. São mais de 60 mil habitantes em Tefé despejando esgoto no rio que leva o nome da cidade, afluente da margem direita do Solimões, com 350 km de extensão.
Me disseram que a natureza se encarrega de "aproveitar" e diluir o que o "nosso corpo" joga no rio, e assim nossos dejetos não poluem.

É a modernidade chegando antes do essencial; são as prioridades secundárias da vida contemporânea.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A Comunicação

Agora estou aqui checando emails, falando com alguns amigos pelo msn e vendo o que rola nas redes sociais das quais participo. Mas ontem eu estava nesse barco do vídeo, indo com o coordenador do Instituto Mamirauá até uma das comunidades que fazem parte da reserva entregar uma carta a um ribeirinho.
Eu, do Amazonas, falo em tempo real com o namorado que está em São Paulo, pelo computador, celular ou torpedos. Mas para algumas pessoas - mais do que imaginamos - a única forma de comunicação são cartas. E entregues sem a ajuda dos Correios.
Navegamos 7 horas para ir e voltar desse lugar; mais de 350 km pelo Rio Solimões para que a carta chegasse ao destino.
Esse é o Brasil que nós, moradores das grandes cidades, não conhecemos.
Um Brasil sem saneamento básico, sem energia elétrica, sem computador e muito menos internet. Sem shopping, sem supermercado e farmácia. Sem carro. Sem poluição. Sem devedores de bancos e cartões de crédito.
Um Brasil que valoriza a família, os amigos, a comida de todo dia. Que não conhece apagão, congestionamento, caos aéreo.
É apenas um dos muitos Brasis que a maioria de nós não conhece.

Rumo à RDS Mamirauá, pelo rio Solimões

Este vídeo mostra um pedacinho da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no Amazonas. Neste momento estamos saindo da cidade de Tefé, cidade mais próxima, e indo para a área da reserva. Dá para ver as casas flutuantes onde moram os ribeirinhos e, claro, um pedaço da floresta amazônica. Este é o Rio Solimões. A Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá está situada na confluência dos rios Solimões e Japurá. Sua porção mais a leste fica nas proximidades da cidade de Tefé, no Estado do Amazonas. Junto com a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã, criada em 1998, e com o Parque Nacional do Jaú, Mamirauá forma o maior bloco de floresta tropical protegida do mundo, totalizando aproximadamente seis milhões de hectares, uma área maior do que a Suíça. Além disso, as RDS Mamirauá e Amanã são consideradas Patrimônio Mundial pela Unesco.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Peculiaridades amazonenses

Já disseram que o Brasil é uma reunião de países dentro do país. E é mesmo. Cada Estado tem suas peculiaridades, tanto na cultura, como no sotaque e também no modo de agir das pessoas.

Aqui em Tefé, no meio do Amazonas, passei por algumas situações engraçadas:

1) na lanchonete, esperando para fazer o pedido, o garçom me viu com caneta e papel na mão (eu estava trabalhando) e disse: pode anotar aí o seu pedido.

2) ok. A equipe pediu vários lanches. E aqui tudo demora uma eternidade. Dizem que baiano é devagar, mas amazonense é quase parado. Recebemos o pedido depois uma meia hora. Algumas pessoas quiseram repetir e o garçom disse: "Não dá não. Vai custar...". Traduzindo: vai demorar. E eles não consideram que o primeiro pedido tenha demorado... Além disso, os pratinhos nos quais eles servem os lanches são contados. Se você demora pra comer, o garçom vem buscar a cumbuca para servir outro cliente.

3) um dos pesquisadores que estava com a gente, boliviano, morador de Tefé, biólogo que trabalha no Instituto Mamirauá, contou que uma vez levou um grupo a uma pizzaria aqui. É claro que consumiram bastante, pois havia várias pessoas. Quando as pizzas chegaram à mesa, eles notaram que faltavam algumas. Questionaram o dono do lugar, que respondeu: "não posso vender tudo para vocês. Senão, o que vou vender mais tarde pra quem vier aqui?"

4) outra frase costumeira aqui quando se pede algo: "O senhor tem (qualquer coisa)?". Resposta. "Tem. Mas acabou".

5) Ah! A melhor de todas: no cardápio há opções de "X-burguer" com queijo e sem queijo. Sensacional!!

Agora, a parte boa da viagem. Uma foto do espetacular Rio Solimões.

[mais fotos no Facebook]

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Ossos do ofício, sem sacrifício

Amanhã estou de partida para Tefé, no Amazonas. Vou com uma equipe da TV1 fazer reportagens sobre a primeira Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Brasil, Mamirauá.

Devo ficar duas semanas por lá, mas munida de máquina fotográfica, claro.
E pretendo abastecer o blog com muitas imagens sensacionais da Amazônia.

Só espero chegar a tempo de comemorar meus 30 anos perto dos amores.

Trinta anos... idade complicada, um tanto descaracterizada. Meio em cima do muro entre a juventude e a velhice: quem tem 30 anos não é nem uma coisa, nem outra.

domingo, 8 de novembro de 2009

Universidade? Não. Uniboçalidade.

Estou estarrecida com a atitude da Uniban de expular a aluna Geisy, aquela do microvestido, que foi hostilizada e chamada de "puta" por um bando de universitários imbecis - incluindo alunos, homens e, pasmem!, mulheres também.
Na verdade, já devíamos esperar que uma universidade de quinta categoria tivesse uma atitude de quinta categoria. Como li no twitter hoje, "pior do que ser expulsa da Uniban é ter um diploma da Uniban".
Há males que vêm para bem, Geisy: agora você terá a chance de se formar numa universidade de verdade, onde exista espaço para discussões, que seja dirigida por mestres competentes, onde você não seja obrigada a conviver com boçais disfarçados de alunos.
Como disse Reinaldo Azevedo em sua coluna na Veja, "num país respeitável, Geisy receberia indenização milionária, e a Uniban encontraria o seu devido lugar na lata de lixo da educação moral".

sábado, 24 de outubro de 2009

#021

Depois de muitos, muitos meses publicando porcarias, finalmente gostei da análise feita na matéria de capa da Veja desta semana.
Sim, quem cheira - ou fuma - mata. Os bandidos mandam. Há um estímulo populista à favelização. Repressão não combate crime. As comunidades são escudos humanos. Quem manda na cadeia são os bandidos e os advogados são agentes do tráfico. A corrupção é o início - e o fim - de tudo.

Como complemento ao texto de Veja, sugiro o retrato fotográfico feito pelo blog "Olhar sobre o mundo", do Estadão. Abaixo, um belo exemplo do olhar crítico e sensível do fotógrafo Wilton Júnior, da Agência Estado. Contra os fatos - e as imagens - não há argumentos.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Da série: descendo do salto

Se quiser me ofender, as duas maneiras mais eficazes são me chamar de desonesta e/ou injusta. Não suporto e não admito - porque não sou.
Qualquer outro adjetivo é discutível. Mas esses dois não; me tiram do sério.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Rio 2009

Capa de hoje do jornal Extra, do Rio de Janeiro.
Sensacional.

Eu não apoiei o Rio2016. Acho que inverteram o caminho: usar uma Olimpíada para justificar melhorias e investimentos está errado. O correto é o contrário: as obras deveriam ser feitas pensando na população que mora lá, e não nos turistas que virão. Usar dinheiro público para "arrumar a casa" pros visitantes é o fim da picada. A casa deveria ser arrumada para quem mora nela, oras.
Pra melhorar a vida das pessoas não há verba. Para receber uma Olimpíada aparecem bilhões (sem mencionar o caixa 2, 3... a "bola" das empreiteiras...)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

A frase

Há algum tempo uma amiga escreveu um post sobre a frase que as mulheres mais querem ouvir de um homem. Nunca esqueci aquele texto; aquelas palavras, volta e meia, soavam no meu ouvido.

Automaticamente, somos levadas a acreditar que ouvir "eu te amo" ou "você é a mulher da minha vida" - clichês que muitas vezes são repetidos como mantras, da boca pra fora - é o ápice do relacionamento, e não refletimos com profundidade o que realmente importa no dia-a-dia, na convivência.

"Tudo o que uma mulher quer ouvir é 'eu cuido de você'”.

“'Eu cuido de você' tem profundidade, responsabilidade, doçura, envolvimento sem barreiras. 'Eu cuido de você' sugere futuro, segurança, compromisso. E um bem-querer absoluto. Uma mulher quer ser cuidada, não venerada. (...) 'Eu cuido de você' é uma frase que faz qualquer homem parecer maior. Depois dela, o abraço fica mais gostoso, o colo é de um aconchego indescritível."

sábado, 26 de setembro de 2009

De repente, 30

Quer dizer, nem tão de repente assim...

Nunca acreditei muito naquela história de crise da idade. Afinal, que grande diferença poderia haver entre um ano e outro, entre ter 20 ou 21, 25 ou 26... Mas agora, chegando nos 30, estou mudando de opinião.
É engraçado. Não sei explicar ao certo o que tem mudado nesses meses que antecedem os 30, mas algo está diferente.
Mais do que o cabelo ou o estilo das roupas - mais sóbrias -, tem havido uma mudança mais profunda e efetiva. Na maneira de ver a vida, de encarar os trabalhos, menos paciência para discussões fúteis, mais tolerância com as diferenças, tento ouvir mais e falar menos, tenho me policiado quanto as críticas que faço - e que recebo.
Pendências antigas e recorrentes foram resolvidas.
Quando eu tinha 18 anos, imaginava que com 30 já estaria casada, com filhos, num emprego burocrático qualquer, lavando, passando...
Ufa! Ainda bem que não foi assim. Viajei mais, namorei mais, tomei porres homéricos, tive empregos mais divertidos, terminei a faculdade, fiquei pra titia. Graças a Deus! O Lelê é a paixão da minha vida e, o melhor, é que tia fica só com a parte boa. Quando dá problema, a gente devolve pra mãe, né.

Chego aos 30 com menos amigos - só os verdadeiros ficaram. Mas chego com um companheiro - que também é amigo, cúmplice, meio maluco, mas que me diverte e, hoje, me faz rir.
Vou entrar na idade de Balzac redefinida, mais resolvida, zerada.
Os 22 dias "fora do ar" no começo deste ano me ensinaram a viver um dia de cada vez. Em menos de um minuto, tudo pode mudar. Por isso, nada de expectativas exageradas, nada de conclusões precipitadas, nada de exercícios futuristas. De concreto, só o hoje. Aprendi que serenidade é muito melhor do que euforia.
Garanto pra vocês que é melhor assim.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Dia Mundial Sem Carro

Hoje é o Dia Mundial Sem Carro.
Mas peraêee: o Brasil é um dos países que mais têm incentivado a compra de automóveis. Redução de IPI, parcelamento a perder de vista, preços competitivos...
Faz sentido apoiar uma campanha dessas?

Além do mais, imaginem se 20% dos paulistas que usam carro diariamente resolvessem trocá-lo pelo transporte público (ônibus/metrô). Aí teríamos de inventar o Dia Paulista Sem Sair de Casa.
Caos total.

Eu acho bonitinha essas campanhas politicamente corretas, mas convenhamos, o resultado disso é quase nulo. Nem discussão gera. Pura hipocrisia.

Primeiro, seria necessário criar condições, para depois inventar campanhas.

Sou a favor da carona. Acho realmente que os carros em São Paulo - incluindo o meu - andam vazios demais. Geralmente, dos cinco lugares, apenas o do motorista anda ocupado. Mas também a campanha que fizeram sobre isso tentava incentivar que as pessoas a combinassem carona pela internet, com desconhecidos. Aí é demais.

Ou seja: ideias para campanhas bonitinhas não faltam. Mas sobra utopia,irrealismo e hipocrisia na execução delas.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

♀ + ♂ = ≠


Os dois estão deitados na cama. Ela passa a mão no cabelo dele; ele retribui. A televisão está ligada num canal qualquer.

De repente, ele pede o controle remoto e escolhe a opção das rádios da tv a cabo.

Ela pensa: ele vai escolher uma rádio que toque blues ou jazz ou algo do gênero, pra completar o clima, claro.

Ele não pensa duas vezes: clica na CBN, a estação que está transmitindo o jogo de futebol.

Ela murcha.

Fim da história.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Não dá para mudar o começo, mas sempre dá para melhorar o final

Começou como diversão, se transformou em paixão, virou confusão e culminou com a separação. Dos três.
Algum tempo depois, o recomeço. Ou melhor: o começo, de verdade.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

É inverno no inferno

Parei em uma loja de conveniência para tomar um café e no balcão havia a placa abaixo:


Daí eu fiquei pensando: será que no inferno os capetinhas tomam sopa para esquentar o clima? Que decepção!!

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Deus e o Jardim das Delícias

Religião, dinheiro e política são os principais responsáveis pelas guerras no planeta. Abaixo segue um excelente artigo de Hélio Schwartsman publicado na Folha de S.Paulo. Mas quem vive sob algum dogma religioso, é melhor pular a página. rs


Já que a comparação que fiz entre missas e comportamentos histéricos em minha coluna da semana passada irritou bastante gente, proponho hoje desenvolver um pouco mais o tema.
Convenhamos que religião e nosso conhecimento do mundo não andam exatamente de braços dados. De um modo geral, virgens não costumam dar à luz (especialmente não antes do desenvolvimento de técnicas como a fertilização "in vitro") e pessoas não saem por aí ressuscitando. Em contextos normais, um homem que veste saias e proclama transformar pão em bife sempre que dá uma espécie de passe seria prudentemente internado numa instituição psiquiátrica. E não me venham dizer que a transubstanciação é apenas um simbolismo. Por afirmar algo parecido --a "impanatio"--, o teólogo cristão Berengar de Tours (c. 999-1088) foi preso a mando da Igreja e provavelmente torturado até abjurar sua teoria. Ele ainda teve mais sorte que o clérigo John Frith, que foi queimado vivo em 1533 por recusar-se a acatar a literalidade da transformação.

Quando se trata de religião, aceitamos como normais essas e muitas outras violações à ordem natural do planeta e à lógica. A pergunta que não quer calar é: por quê?
Ou bem Deus existe e espera de nós atitudes exóticas como comer o corpo de seu filho unigênito ou o problema está em nós, mais especificamente em nossos cérebros, que fazem coisas estranhas quando operam no modo religioso. Fico com a segunda hipótese. Antes de desenvolvê-la, porém, acho oportuno lembrar que a própria pluralidade de tabus ritualísticos depõe contra a noção de Verdade religiosa.

Se existe mesmo um Deus monoteísta, o que ele quer de nós? Que guardemos o sábado, como asseguram judeus e adventistas; que amemos ao próximo, como asseveram alguns cristãos; que nos abstenhamos da carne de porco, como garantem os muçulmanos e de novo os judeus; ou que não façamos nada de especial e apenas aguardemos o Juízo Final para saber quem são os predestinados, como propõe outra porção dos cristãos?

Talvez devamos eliminar os intermediários e extrair a Verdade diretamente nos livros sagrados. Bem, o Deuteronômio 13:7-11 nos manda assassinar qualquer parente que adore outro deus que não Iahweh; já 2 Reis 2:23-24 ensina que a punição justa a quem zomba de carecas é a morte. Mesmo o doce Jesus, fundador de uma religião supostamente amorosa, em João 15:6, promete o fogo para quem não "permanecer em mim".

E tudo isso em troca do quê? A Bíblia é relativamente econômica na descrição do Paraíso, mas o nobre Corão traz os detalhes. Lá já não precisamos perder tempo com orações e preces, poderemos beber o vinho que era proibido na terra (Suras 83:25 e 47:15), fartar-nos com a carne de porco (52:22) e deliciar-nos com virgens (44:54 e 55:70) e "mancebos eternamente jovens" (56:17). O Jardim das Delícias parece oferecer distrações para todos os gostos, mas, se banquetes, prostíbulos e saunas gays já existem na terra, por que esperar tanto... --poderia perguntar-se um hedonista empedernido.

Volumes e mais volumes podem ser escritos para apontar as incoerências e desatinos dos chamados textos sagrados. Se acreditamos que um Deus pessoal chancelou ou ditou cada uma dessas obras, temos, na melhor das hipóteses, um Ser Supremo com transtorno dissociativo de identidade, também conhecido como personalidade múltipla. Espero que, no fim dos tempos Ele esteja judeu de novo. Tenho um primo que faria bom uso do Paraíso...

Voltando às coisas sérias, uma possibilidade mais plausível é que o chamado cérebro espiritual, os módulos neuronais que criam e processam ideias religiosas, seja menos permeável aos circuitos lógicos. Quem faz uma interessante análise do problema é o médico e geneticista americano David Comings em seu monumental "Did man create God?", uma ampla revisão de quase 700 páginas em que o autor esmiúça o caso de Deus sob todas as vertentes da ciência, em especial a neurologia.

Para ele, ao contrário do mais provocativo Richard Dawkins, a religião dá prazer, foi fundamental na evolução de nossa espécie e só será extinta quando o último homem morrer. Mais importante, Comings acredita que os cérebros racional e espiritual, embora funcionem de modo independente um do outro, podem de algum modo ser conciliados no que o autor chama de "espiritualidade racional". Cuidado aqui, o espiritual é uma esfera que abarca a religião, mas é mais ampla do que ela. Inclui outras tentativas de tocar a transcendência.

Num resumo algo grosseiro da mensagem central de Comings, só o que precisaríamos fazer é admitir que foi o homem que criou a ideia de Deus e escreveu os livros supostamente sagrados. Assim, nenhuma religião é verdadeiramente "a Verdadeira" ou intrinsecamente superior às concorrentes. Já não é necessário que guerreemos para descobrir se é o Deus cristão ou muçulmano que está certo. No limite, entregamos Deus para conservar uma espiritualidade menos belicosa, que nos permita a experimentar a transcendência a baixo custo.

É uma proposta engenhosa, mas, receio, muito difícil, quase impraticável. O monoteísmo já traz em germe a ideia de que existe um único caminho para a salvação e todo os que não o seguem estão condenados. Embora a maioria das pessoas consiga enxergar e valorizar as semelhanças entre os Deuses das várias religiões, sempre emergirão grupos mais intolerantes que exigirão o exclusivismo. Por paradoxal que pareça, não se os pode acusar de irracionais. Eles apenas levam realmente a sério o que está escrito. Numa abordagem puramente lógica, o Deus dos católicos e o de Calvino, por exemplo, não podem estar certos ao mesmo tempo. O conflito é uma decorrência do cérebro racional processando uma ideia espiritual.

É claro que podemos e devemos incentivar posições pró-tolerância como a de Comings. Os níveis de guerras religiosas variaram ao longo das épocas, num processo que certamente tem algo a ver com o modo mais ou menos pluralista utilizado pelos clérigos em suas prédicas. Não devemos, contudo, ser ingênuos a ponto de imaginar que o conflito possa ser extinto. O mundo é um lugar cheio de problemas.

De minha parte, embora ímpio contumaz, também acredito em transcendência. Para mim, ela está em atividades biologicamente inúteis às quais nos dedicamos e atribuímos valor, como literatura, música, pintura, filosofia e, por que não?, teologia. Elas podem ser extremamente prazerosas e, no limite, preencher nossas vidas com um significado que a natureza apenas não lhes dá. Mas não é porque a literatura nos leva à transcendência que devemos achar que Aquiles ou Brás Cubas existem.

[Hélio Schwartsman, 44, é articulista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.E-mail: helio@folhasp.com.br]

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Apenas viva!

Apesar de ser um comercial da Coca-cola, a mensagem é muito bonita. E verdadeira.
Enjoy.
No fim, só vamos nos lembrar das coisas boas - pelo menos era assim que deveria ser.
Como disse alguém - que não lembro quem - não dá para mudar o começo da história, mas sempre dá para mudar o final.

video

[não é necessário ligar o som, pois está legendado. É curtinho. Vale a pena assistir]

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Coisas que me irritam

- pessoas que esperam o elevador para ir ao 1º andar
- gente que joga lixo na rua
- "espertinhos" que furam fila
- vendedores mal humorados
- acordar cedo
- quem me liga antes das 10h (com algumas exceções, claro)
- motoristas que param no meio da rua, normalmente sem dar seta
- fila dupla
- carro de gente "normal" estacionado em vaga de gente "especial"
- barulho de gente mastigando pipoca ou cochichando em sala de cinema / teatro
- quem atende celular no meio de palestras, reuniões e afins
- piadas preconceituosas
- ser subordinada a profissionais menos competentes que eu
- emails com correntes azarentas (sim, tem gente que ainda acredita nisso)
- quem trata mal os subordinados
- arrogância
- eu, irritada.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Aviso!!

O blog não morreu! Nem a dona dele.
Volto em breve, mais inspirada.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Paradoxos vitais

Já parou para pensar que nascemos sofrendo? Quando recém nascidos, sofremos com as cólicas, com os gases, com os refluxos, e o pior: não conseguimos dizer onde dói, o que dói.
Na primeira infância sofremos com os dentes nascendo, com os tombos aprendendo a andar, com as dores que ainda não conseguimos expressar.
À medida que vamos crescendo, as dores físicas continuam, e a elas acrescentam-se ainda outro tipo de dor: a emocional.
Sofrer faz parte da vida. E é uma parte importante. Arrisco até a dizer que gastamos muito mais tempo com o sofrimento do que com a felicidade. E isso é bom? Depende de como encaramos.
Do sofrimento dos poetas resultaram os melhores poemas; da dor dos músicos, as letras mais tocantes; da angústia dos pintores, nasceram os quadros mais admirados.
Ou seja: o sofrimento, de alguma forma, também resulta em alegria.
Sabe aquela velha história de que não devemos mexer em time que está ganhando? Pois é. Imaginem se fossemos felizes o tempo todo! Que razão teríamos para avançar, mudar, transformar, arriscar, melhorar, aprender,valorizar?
Pense nisso.

domingo, 10 de maio de 2009

Segregação

Vou falar sobre um assunto polêmico: cotas raciais.
E começo avisando que sou contra. Absolutamente contra. Dividir as pessoas por raças é um retrocesso sem tamanho. A Constituição brasileira afirma que somos todos iguais - e além disso, sempre lutamos pela igualdade, seja das cores, seja dos sexos.

O programa Canal Livre de hoje, transmitido pela Band, discute o tema. Entre os convidados estão o sociólogo Demétrio Magnoli e o presidente da Educafro, Frei Davi Santos.

Os argumentos de quem defende as cotas raciais, seja na universidade, seja em qualquer lugar, são vazios. A começar pelo método usado pelo Censo no Brasil. Se eu, branquela desse jeito, disser ao pesquisador do Censo que sou negra, ou que sou parda, ele é obrigado a preencher minha ficha assim. Não há um "teste" mais eficaz, digamos, para "qualificar" a raça das pessoas. Isso abre margem para eu me qualificar como negra ou branca conforme a conveniência. E convenhamos, no Brasil poucas pessoas se definem como negras. Por isso invetaram o tal de "pardo" - não sei a diferença entre um e outro.

O problema para resolver a desigualdade no Brasil é tentar incluir os pobres. Sendo pretos ou sendo brancos. Por isso eu defenderia, com certeza e convicção, as cotas sociais. Sem essa de raça - isso pode nos levar à segregação.

Demétrio Magnoli lembrou bem o caso de Ruanda, onde os próprios negros se dividiram em raças superiores e inferiores, culminando com um massacre racial.

Eu acho, sim, que as universidades públicas deveriam ter vagas reservadas para quem não tem renda para pagar uma faculdade particular. Até porque nas universidades públicas, quem reina são os egressos das boas escolas, em sua maioria particulares.

Temos que evoluir para a inclusão das pessoas e, consequentemente, para a união dos povos. Tudo o que é criado para separar, dividir, classificar, culmina em guerras. Religião, dinheiro, status social, e por aí vai.

Com tanta desgraça e violência nesse planeta, está na hora de caminharmos na mesma direção.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Terapia de salão

É engraçado como a maioria das mulheres costuma externar a fase de "mudança interior" através do cabelo. No filme "Divã", por exemplo, a hilária Lilia Cabral, em momento esfuziante, implora pro cabeleireiro: "repica! repica! repica!". E é assim mesmo. Ou melhor: somos assim.

Mulheres têm apego ao cabelo. E quando queremos nos livrar de algo, geralmente a primeira coisa que fazemos é correr para o salão, como se a tesoura pudesse cortar mais que o simples cabelo.

Taí o resultado. A história desse corte é longa...


Além de repórter, servi de "modelo" para uma pauta sobre visagismo. Confesso que achava essa técnica uma bobagem a mais no mundo fashion, mas o negócio é bem mais profundo. Passei por uma verdadeira consultoria de personalidade e de objetivos até chegar nesse resultado. Obra de André Mateus, da Cabelaria.
Meu terapeuta que se cuide. Corre o risco de perder a cliente.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Da série: dúvidas da humanidade

Outro dia um colega questionou por que os canalhas se dão melhor do que os "bonzinhos" quando o assunto é mulher.
Respondi pra ele que a questão não é ser canalha ou ser bonzinho. A questão é ser honesto.
Canalha dando uma de bonzinho é até trivial. Mas não tem nada pior do que um bonzinho querendo agir como canalha.
Mulher gosta de homem maduro, que acredita em si, que tem autoestima elevada, autoconfiança. E que se assume. Seja bonzinho, ou seja canalha. A partir daí, a escolha é nossa.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Dicas para enviar currículo

Mês passado, recebi centenas de currículo no jornal onde eu trabalhava. E desde então tenho pensado em escrever sobre isso, como forma de ajudar as pessoas. Eu nunca tinha sido responsável por analisar currículos. E agora sei a importância de certas dicas que às vezes não levamos em consideração.

1) A primeira dica e a mais essencial é: não mande currículo como anexo. Sempre cole no corpo do email. Isso facilita imensamente a vida de quem irá ler os emails, além de evitar a propagação de vírus;

2) Ao citar as experiências profissionais, comece SEMPRE pela mais recente, e siga em ordem decrescente;

3) Se você trabalha na área de comunicação, como eu (sou jornalista), uma dica bacana é reunir seus trabalhos em um blog ou site. Se a pessoa se interessar pelo seu currículo, é mais fácil ela clicar no link do que ficar abrindo anexos com exemplos de matérias publicadas;

4) Se você REALMENTE domina a língua portuguesa, destaque no seu currículo - pode parecer bobagem mas é uma característica importantíssima atualmente. Só tome cuidado para não cometer gafes logo na apresentação. Recebi currículos destacando essa qualidade mas a pessoa errou a gramática logo de cara;

5) Recebi alguns currículos em formato pdf. Poucos, mas recebi. Gente, jamais um selecionador vai perder tempo abrindo arquivos em pdf, por mais extraordinária que seja sua apresentação;

6) Foto no currículo? Só se a empresa pedir. Atualmente, isso está fora de uso;

7) Ao enviar o currículo, escreva algumas linhas se apresentando à pessoa que irá receber o email e faça um breve resumo das suas qualificações. Destaque suas principais habilidades e características, diga qual é sua disponibilidade de horário, se pode viajar a trabalho. São informações importantes, mesmo que a princípio a vaga não exija;

8) Não é bacana mandar email com cópia oculta para centenas de endereços, de maneira generalizada. A impressão que o selecionador tem nesses casos é de que a pessoa está desesperada atrás de emprego e mandou email para todas as vagas que encontrou pela frente. Por mais que isso seja verdade, certas atitudes é melhor omitir;

9) A qualificação é importante, mas a apresentação do currículo também é fundamental. Neste caso, aquela máxima de "não julgar o livro pela capa" não vale.

10) Se você não se encaixa na maioria das exigências que a vaga pede, não perca seu tempo enviando email e não faça o selecionador perder tempo deletando seu currículo.


Essas não são dicas de um selecionador profissional. São apenas itens que observei e que acho relevante repassar.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

#Campanha contra a hipocrisia

Antigamente, quando as pessoas se conheciam, trocavam telefone. Na década de 90, começaram a trocar email. No início do século XXI, evoluíram para o celular, em seguida para o msn e orkut.
Eu parei no tempo, na fase do email. Sou mulher, mas tenho um lado masculino que prevalece quando se trata de comunicação. Por exemplo, quando não sei o caminho, costumo dar voltas ao invés de parar para perguntar. Telefone? Detesto. Fico dias sem usar o celular (e sem atendê-lo também, principalmente se for número restrito). Email vc responde quando quer, e se quiser. Não acho que as pessoas têm obrigação de falar com os outros quando não estão a fim.
Enrolei tudo isso para dizer que eu uso a tecnologia a meu favor. Conecto e desconecto (literal e metaforicamente) quando e onde me convém. E não tenho problema nenhum em admitir isso.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Mais foda seria não publicar o 'caralho'

A Folha de São Paulo publicou hoje uma matéria com a reação de Ciro Gomes sobre a questão da cota de passagens aéreas para parlamentares. Conhecido por seu temperamento "forte", o ex e futuro candidato à presidência da República "desabafou" aos jornalistas presentes que não tinha medo do Ministério Público, nem da imprensa, nem dos deputados.

"Ministério Público é o caralho! Não tenho medo de ninguém. Da imprensa, de deputados". "Pode escrever o caralho aí", disse Ciro. A Folha obedeceu e publicou (para assinantes).

Recebi alguns emails de colegas jornalistas criticando a atitude do jornal. Oras, a hipocrisia mundana - que também habita a imprensa - é uma merda. Um deputado diz que "MP é o caralho" e o jornal não deveria publicar??? Não é uma informação relevante??

Ciro também chamou os colegas deputados de "um bando de babacas", desta vez, generalizando, sem citar nomes.

Para meu alívio, um amigo retrucou a hipocrisia com o singelo comentário: "É no mínimo engraçado ser brasileiro e habitar esta terra. Um monte de gente pelada, carnaval o ano inteiro, criança dançando funk na televisão e quando aparece um caralho no jornal o pessoal cai pra trás?"

Pois é. Isso chama-se hipocrisia. Bah...

ps: o Congresso em Foco trouxe um texto mais completo sobre o assunto. E não editou os palavrões.

domingo, 19 de abril de 2009

Saindo do papel

Há alguns anos precisei abrir uma empresa para emitir nota fiscal dos trabalhos que fazia na área de comunicação. Agora, estou começando a viabilizar um projeto para tirá-la do papel e ir para um endereço real. Um dos "detalhes" que preciso resolver a priori é o nome fantasia (uso o mesmo nome da razão social).

Alguém por aí tem alguma dica? Não gosto muito de estrangeirismos, mas se for muuuito bacana, aceito. rs
Ah! É uma empresa de comunicação, na área de jornalismo. Eu queria evitar o já tão manjado "press"...

domingo, 12 de abril de 2009

Alternativa

A maioria das pessoas ficam ansiosas para completar 18 anos, chegar à maioridade. As razões variam, mas em geral, ultrapassar essa barreira significa poder tirar habilitação para dirigir, entrar no motel com o RG original, frequentar as baladas dos irmãos mais velhos, comprar bebida alcoolica e/ou cigarro sem medo em qualquer loja de conveniência, e mais um milhão de "vantagens".
Para mim, claro, tudo isso fazia parte da ansiedade. Mas o meu primeiro ato pós-adolescência seria também o meu primeiro gesto nobre e de altruísmo: doar sangue. Sempre quis me tornar uma doadora. O gesto mais humano que podemos ter é doar algo que é genuinamente nosso, algo que nos mantém vivos, que é parte do nosso corpo.
Para minha decepção, ainda na adolescência descobri que tenho talassemia - anemia congênita, sem cura, mas que por ser na forma 'minor', não me causa problemas nem restrições, com exceção de doar sangue. Segundo a médica, o meu sangue poderia ser aproveitado por outras pessoas, mas eu correria o risco de ficar muito fraca.
Ano passado fiz uma matéria sobre transplante de medula óssea e descobri que o procedimento é bem mais simples do que o nome sugere. É um transplante e acompanha todos os riscos de uma cirurgia, claro. Mas doar medula não é um bicho de sete cabeças. É parecido com doar sangue. E o transplante de medula não é utilizado apenas no tratamento da leucemia - apesar de ser o uso mais comum. A medula doada pode ser a solução de diversas outras doenças.
Estou pensando, desde então, em compensar a decepção com a doação da minha medula.

ps: se alguém já tiver passado por esse procedimento, por favor, me conte como foi.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Que seja eterno enquanto dure. E que dure pra sempre

Uma metáfora dita na novela das oito me fez refletir. Segundo os personagens indianos, os ocidentais se casam com a água fervendo, e deixam ela esfriar ao longo do tempo. Os indianos casam com a água fria, e fazem-na ferver com o passar dos anos.
A paixão faz parte da vida, nos motiva, impulsiona, anima. E talvez por ser algo que nos proporciona um nível alto de prazer em tão pouco tempo, vicia. E é aí que precisamos ter cuidado. Eu acredito e apoio que tudo na vida tem de ser feito com paixão. Mas ela não dura pra sempre; o corpo acostuma e o prazer, antes viciante, já não surte o mesmo efeito. Temos que aprender que os estágios subsequentes à paixão também são interessantes. Menos viciantes, portanto, passíveis de maior controle, sensatez, senso crítico, dissernimento.
Não cheguei a nenhuma conclusão sobre qual caminho seria melhor seguir - se dos indianos ou dos ocidentais. Só sei que defendo a paixão como uma fase necessária, seja no começo ou no meio. Só não no fim, porque aí a chance de overdose é grande.



[semana passada mais uma amiga resolveu juntar as escovas e colecionar fraldas - não necessariamente nessa ordem. Lí e Chico, além de amor, desejo sabedoria, paciência e compreensão para que essa etapa da vida de vocês dure para sempre]

quinta-feira, 19 de março de 2009

sábado, 14 de março de 2009

Stand-up

Esta semana participei de um bate-papo com o Rafael Cortez e o Oscar Filho, na Fnac, sobre a disseminação e o sucesso das comédias stand-up. Fiquei tão interessada no assunto que ontem estreei nas plateias. E virei fã.
O show parece tão simples - afinal, não tem cenário, não tem muleta alguma -, mas é extremamente complexo fazer esse tipo de humor. O artista tem que estar informado sobre a atualidade, senão perde ganchos importantes. Piada pronta não vale. Informação antiga também não. E disseram que uma das regras do show é fazer a plateia rir a cada 15 segundos. Ufa!
Uma inovação que achei bem interessante foi apresentada pelo Ben Ludmer. Ele mistura stand-up com mágica. A fórmula deu muito certo.
A blogueira Rosana Hermann também estreou ontem. Nos palcos. Ela foi convidada pelo Bruno Motta e mandou muito bem. Segurou uns 20 minutos de show e fez a plateia rir bastante. Eu sou suspeita porque gosto muito do trabalho da Rosana, há anos (bem antes do Pânico e da Band).
Para quem estiver a fim de assistir um show desses, em São Paulo sei de dois lugares que abrigam stand-up bacanas: Memphis e Teatro Folha.
Vale a pena e não são programas caros.

domingo, 8 de março de 2009

Santa ignorância

Hoje, Dia Internacional da Mulher, chovem "homenagens" de todos os lugares, principalmente da mídia.
É fato que, a cada ano, temos avançado em diversos aspectos. Temos conseguido nos destacar cada vez mais na economia, na carreira, na formação cultural, na política.
Mas ainda falta muito. Falta, principalmente, a conscientização da sociedade sobre o papel importante que as mulheres têm desempenhado há tanto tempo.
Essa semana fiquei estarrecida com a declaração de um arcebispo brasileiro, que afirmou que o aborto é um crime mais grave que o estupro. Eu desejo que esse senhor nasça mulher na próxima encarnação para entender o quão horrenda é essa opinião.
E hoje, para completar minha total aversão à igreja católica, o Vaticano, em sua "homenagem" às mulheres, publicou uma nota dizendo que a "lavadora de roupas foi a verdadeira emancipação feminina".
A BBC fez uma reportagem na Finlândia mostrando que as pessoas não usam camisinha porque a igreja diz que há furos nos preservativos, por onde é transmitido o vírus da Aids. Resultado: 4 em cada 10 finlandeses contraíram a doença.
O catolicismo está nos matando!
Se apologia às drogas é crime, apologia à disseminação de doenças também deveria ser. E reduzir as mulheres a meras operadoras de máquina de lavar deveria culminar com um processo por preconceito e discriminação.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Mulheres possíveis

Por Martha Medeiros
Jornalista e escritora
(Texto do Jornal O Globo)

Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes. Sou a Miss Imperfeita, muito prazer.
Uma imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, mãe e mulher que também sou: trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado três vezes por semana, decido as refeições, levo os filhos no colégio e busco, almoço com eles, estudo com eles, telefono para minha mãe à noite, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e-mails, faço revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, estudo, levo o carro no mecânico, providencio os consertos domésticos, participo de eventos e reuniões ligados à minha profissão, levo o cachorro passear e ainda faço escova toda semana - e as unhas!
E, entre uma coisa e outra, leio livros. Portanto, sou ocupada, mas não uma workaholic. Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres.
Primeiro: a dizer NÃO.
Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO.
Culpa por nada, aliás.
Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero.
Pois inclua na sua lista a Culpa Zero.
Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros. Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram é que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho. Você não é Nossa Senhora. Você é, humildemente, uma mulher. E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante.
Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável. É ter tempo.
Tempo para fazer nada.
Tempo para fazer tudo.
Tempo para dançar sozinha na sala.
Tempo para bisbilhotar uma loja de discos.
Tempo para sumir dois dias com seu amor.
Três dias. Cinco dias!
Tempo para uma massagem.
Tempo para ver a novela.
Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza.
Tempo para fazer um trabalho voluntário.
Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto.
Tempo para conhecer outras pessoas.
Voltar a estudar.
Para engravidar... curtir os filhos.
Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado.
Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir.
Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal.
Existir, a que será que se destina?
Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra.
A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada. Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem. Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si.
Mulher é mulher, não pode parecer um homem!
Se o trabalho é um pedaço de sua vida, ótimo!
Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente. Mulher independente, fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir. Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.
Desacelerar tem um custo. Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da M.A.C. Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando rever seus valores.
E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante.


[Recebi este texto por email e achei sensacional. Simples, direto, honesto e verdadeiro.]

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Quem quer ser um milionário?

Confesso que fui ao cinema assistir esse filme impulsionada pela crítica que li na Veja desta semana (para assinantes). Tá, o longa pode não ser tão sensacional como afirma o texto, mas é bom. Muito bom. A idéia é simples - um garoto indiano pobre tenta reencontrar o amor da infância em um programa de TV - mas o roteirista foi original.
Críticos indianos disseram que o filme glamoriza a pobreza, pois mostra as favelas, a pobreza e a exploração humana que ocorre no país. Já ouvi essa crítica antes: Cidade de Deus, Última Parada 174, Tropa de Elite...
Em todos esses casos - somando Quem quer ser um milionário? - não há glamour. Há realidade. Infelizmente.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Amigos são a família que nos permitiram escolher

Aos poucos estou voltando à vida. A festa da formatura foi bem bacana. E foi também a maneira que encontrei de agradecer o carinho e a ajuda que tenho recebido ao longo dos anos dessa pessoa aí embaixo. Desde que aderi à festa de formatura, não cogitei outro nome e o convidei para ser meu padrinho.



No começo ele era apenas o diretor da empresa na qual minha mãe trabalhou por muitos anos. Depois, virou um "chefe bacana" e, rapidamente, tornou-se amigo da família. Hoje eu tenho por ele um extremo carinho e uma admiração enorme. E temos também algo em comum: a profissão. Eu, começando. Ele, aposentado há anos. Ambos apaixonados pelo jornalismo.



[Meu presente!! Uma garrafa de Veuve Clicquot. Mas o médico liberou apenas uma taça...]

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

A festa acaba. O abraço fica.

Hoje foi minha colação de grau. Mais uma etapa vencida. Aliás, etapas, no plural.

Além dos anos de faculdade, das dificuldades, inclusive financeiras, emocionais, de convívio etc, não foi fácil sair de uma internação psiquiátrica que durou 22 dias e no dia seguinte estar linda, arrumada e sorridente no Citibank Hall.

Apesar de ser um evento cansativo, em alguns momentos minha mente viajou e um filme passou na minha cabeça. Chorei. Muito. Talvez até demais para um evento importante mas que não justificaria tantas lágrimas para a maioria dos formandos. Só que para mim, estar ali, em pé e sorrindo, mesmo que por poucos instantes, foi uma vitória.

Senti muita falta de um abraço que eu, ingenuamente, achei que receberia. Esperei até o fim, e nada.

Mas houve um dado momento de lucidez e maturidade, e no meio daquela gente toda percebi claramente que a única pessoa com quem posso contar incondicionalmente e integralmente durante a minha caminhada neste planeta é essa aí da foto, também conhecida como minha mãe.

E com o apoio dela, mais um dia vivido, vencido e selado com um abraço.

E se existir amanhã... resolvo amanhã.



domingo, 1 de fevereiro de 2009

Questão de escolha - e de neurônios

Na próxima encarnação quero voltar como um ser irracional. Traduzindo: quero nascer homem.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Segunda pausa

Há duas semanas, voltei para aquele lugar onde não há espelhos, onde as janelas só abrem até a metade, onde as portas não têm trancas.
Comecei o ano cansada. Da vida, do mundo, das frustrações, da solidão. De repente, quis dormir. Não um dia só, mas vários. Como o organismo não colabora com isso, resolvi recorrer a uma ajuda externa. Tomei uns comprimidos. Dormi. Acordei. Tomei outro. Acordei de novo. E assim foi durante um final de semana.
Para os médicos, estou doente. Para mim, estou cansada.
Eles dizem que quem não gosta da vida é louco. Eu acho que quem gosta dessa vida que levamos é que é louco. Enfim, questão de ponto de vista. Não quero mais discutir isso. E resolvi desistir.
Meu corpo dói. Minha alma dói.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Garagem

Diálogo entre a minha vó, meu primo mais novo e eu:

Primo mais novo:
- Cá, pode guardar seu carro na garagem porque o Fernando (primo mais velho) vai dormir fora.

Vó:
- Onde ele vai dormir? Ele acabou de pegar o carro! (detalhe: o carro zero do Fernando chegou hoje)

Primo mais novo:
- No motel, ué...

Vó:
- E lá tem lugar para guardar o carro?